O que é ômega-3 e quais os seus benefícios.

O ômega 3 é um tipo de gordura muito benéfica para o coração, cujos benefícios vem sendo pesquisados desde a década de 70, e hoje já são fatos confirmados. Ômega 3 é um tipo de gordura encontrada em peixes marinhos (salmão, arenque, bacalhau, etc.), e em menores concentrações na soja, castanha e óleo de canola. Essa gordura não é produzida pelo organismo humano portanto, deve ser fornecida através da alimentação. O consumo freqüente de alimentos ricos em ômega 3 reduzem os níveis de colesterol e triglicerídios no sangue, e também a pressão arterial. Além disso, o ômega 3 possui efeito anti-inflamatório.

Como as maiores concentrações de ômega 3 estão nos peixes marinhos, e nem sempre é possível tê-los à mesa, a indústria alimentícia está colocando no mercado produtos enriquecidos com o ômega 3, como leite longa vida, leite em pó e ovos. A tecnologia empregada para o enriquecimento do leite é adição do óleo de peixe no produto e, no caso dos ovos, o óleo de peixe é adicionado à ração que alimenta as galinhas.

Os Ácidos Graxos Ômega 3 são lipídios essenciais, que não estão presente no organismo e, por isso faz-se necessário seu consumo por outras fontes, seja de alimentação ou suplementação. As principais fontes de ômega 3 são os peixes: sardinha, cavala, atum, truta, salmão e bacalhau.Também é possível encontrar Ômega 3 nas sementes de linhaça, nozes, castanhas.

O ômega 3 também faz um papel importante ao combate da alergias e inflamações, redução da pressão arterial, diabetes , derrame, asma, alguns tipos de câncer. Alguns estudos atuais ainda mostram o ômega 3 como um ótimo agente ao sistema nervoso. Deve-se evitar fritar os peixes, eles devem ser consumidos grelhados, assados ou cozidos de preferência, para que seus nutrientes sejam mantidos o mais intacto possível. É preciso também ficar atendo a dosagens exageradas de ômega 3. Mesmo que os estudos comprovem seus benefícios, ainda não se sabe o que pode acontecer com uma pessoa que faça o uso em altas doses.

Uma das dicas para quem busca a hipertrofia muscular é ingerir gordura. Um dos erros mais comuns entre as pessoas e atletas é não ingerir gorduras, achando que vão engordar. A gordura tem forte ligação aos níveis de testosterona.

Então gorduras não engordam? Não é bem assim, estamos nos referindo a bons níveis de gorduras, tais quanto suas respectivas quantidades. Como citado, as gorduras têm ligação forte ao nível de testosterona, que é um dos principais hormônios responsáveis pelo ganho de massa muscular e queima de gordura pelo aumento de massa muscular. Além disso, a gordura participa de processos oxidativos das moléculas de gordura corpórea.

Assim como os MTC’s, por exemplo, o ômega 3, pertencente ao grupo dos EFAs pode ajudar no balanço energético da dieta também.

Porém, tudo que é demais faz mal. E o ômega 3 é um óleo com alto poder de oxidação, ou seja, pode contribuir na formação de substâncias prejudiciais ao organismo. Portanto, seu consumo deve ser associado à vitamina E, que tem função anti-oxidante, e é encontrada nos óleos de milho, de girassol, no espinafre, e em cereais integrais. O consumo de ômega 3 e vitamina E, em quantidades devidamente balanceadas, está associado a um menor risco de doenças cardiovasculares.

Recomendações

Ainda não se acham estabelecidas normas específicas para o emprego ou suplementação com os ácidos ômega-3, merecendo outros estudos, apesar das conclusões até hoje assinaladas pelos diversos pesquisadores. As evidências epidemiológicas e os benefícios obtidos com a ingestão de ácidos graxos ômega-3 marinhos, evidenciados pelos realizados sobre os esquimós da Groelândia e os estudos epidemiológicos realizados no Japão por Hirai e col., além dos estudos de longevidade de Kagawa e col. indicam resultados positivos da ingestão dietética de peixe.

Os estudos complementares documentando alterações favoráveis nos perfis hemático e lipídico através da ingestão de peixes marinhos ou da suplementação com cápsulas de óleo de peixe constituem dados importantes sobre o papel exercido pelos ácidos graxos ômega-3. Face aos estudos realizados e ao estado atual dos conhecimentos, sugere-se que os ácidos graxos ômega-3 exerçam efeitos benéficos na prevenção da tromboaterogênese, assim como nas manifestações clínicas da cardiopatia isquêmica. Conclusões mais precisas deverão ser firmadas pela realização de estudos prospectivos a longo prazo, envolvendo dados farmacológicos, dietéticos e terapêuticos. A maior ingestão de ácidos graxos ômega-3 aumentando o conteúdo de ácidos graxos poli insaturados no organismo e possibilitando o aumento da auto-oxidação e da peroxidação lipídica, representa dados a serem devidamente confirmados. Existe ainda a indagação se um suplemento de antioxidantes como as vitaminas C ou E ou de removedores de radicais livres administrados simultaneamente.

Precauções

Apesar de os estudos realizados serem promissores, existem riscos no emprego dos ácidos graxos poliinsaturados, pois foram assinalados alguns efeitos colaterais como mal-estar epigástrico e náuseas, em pequeno número. Também o consumo exagerado desses ácidos graxos pode ocasionar deficiência de vitamina E, assim como o óleo de fígado de bacalhau pode acarretar toxicidade por excesso das vitaminas A e O, o que não é observado com outros concentrados de EPA e DHA.

Risco potencial da ingestão de ácidos graxos poliinsaturados relaciona-se com diabéticos insulino-dependentes, pelo fato de poderem alterar as prostaglandinas e os eicosanóides relacionados na secreção insulínica, o que acarreta aumento da glicemia por aumento da produção hepática, sem haver modificação na sua eliminação, sendo que dessa forma o uso de EPA não trará benefícios para os diabéticos. O capítulo referente à obesidade e ao diabete tem merecido atenção pelo fato de a hiperlipidemia achar-se freqüentemente associada a esses dois estados, devendo ser assinalado que nem todos os diabéticos e obesos são hiperlipidêmicos. O mixedema apresenta predominantemente uma forma de hiperlipidemia que acelera o processo de aterosclerose, em oposição a outras hiperlipidemias encontradas nas nefroses e obstruções biliares, em que não costuma ocorrer aceleração da aterosclerose, principalmente coronariana. Em certos tipos de feocromocitoma e em certas formas de pancreatite também são encontradas alterações lipêmicas.

Quanto às recomendações de doses específicas para suplementação com os ácidos graxos ômega-3, elas poderão ser obtidas a partir dos padrões dos indivíduos submetidos a pesquisas, como os esquimós, acreditando-se que 2,5 a 5,Og de EPA parecem ser razoáveis, associados a uma dieta adequada, principalmente como medida profilática.

Considerações sobre fatores de risco

Considerando os conhecimentos atuais sobre a aterosclerose, que são multifatoriais, havendo inter-relação entre os fatores que interagem no processo instalado, velocidade de evolução, progressão, evolução clínica, grande número de evidências indicam que se deva dar ênfase aos diversos fatores de risco, como os antecedentes familiares positivos, o aumento do nível do colesterol sangüíneo os níveis de pressão arterial, o fumo excessivo, a vida sedentária, ausência de exercícios físicos adequados, o controle do peso do indivíduo, controle da glicemia nos diabéticos.

Numerosas populações estudadas mostraram que uma elevada concentração de colesterol total ou LOL-colesterol no plasma constitui um maior fator de risco para o aparecimento da aterosclerose. Além disso, nas desordens monogênicas, as famílias estudadas revelaram um maior incremento de risco de doença vascular, afetando diversos integrantes seus. No entanto, no tratamento da hiperlipoproteinemia têm sido emitidas controvérsias, principalmente por causa da redução dos lipídios plasmáticos, não tendo sido prospectivamente demonstrado o prolongamento da vida ou a eliminação das complicações clínicas da aterosclerose. Em 1984, os resultados da Lipid Research Clinic Coronary Primary Prevention Trial, num estudo duplo-cego, assinalaram fortes evidências de que a redução das concentrações de LOL plasmáticas podem reduzir o risco de doença coronariana (Lipids Research Clinics programs).

A aterosclerose, de acordo com estatísticas, é rara nos povos cuja alimentação é pobre em colesterol, pois a alteração no metabolismo do colesterol é um dos fatores desencadeantes de aterosclerose, em que ocorre modificação na camada íntima, na camada elástica e na camada média das artérias. Atualmente, além da forma arteriosclerose lipidogênica focal, há uma outra forma – a arteriosclerose difusa, esclerosante, fisiológica, não-lipidogênica, que seria condicionada por fatores não bem identificados no homem, experimentalmente relacionados com a nutrição vital no funcionamento da parede arterial.

A placa ateromatosa é constituída de várias substâncias, como o colesterol, ácidos graxos, lipoproteínas, depósitos de cálcio, glicídios complexos, tecido cicatricial fibroso e sangue, existindo diversas teorias e estudos publicados para melhor esclarecimento deste capítulo tão importante da patologia vascular. A aterosclerose pode atingir vários vasos sangüíneos arteriais, sempre com danos gravíssimos. Brusis e MacGandy, numa adaptação de trabalhos de outros autores, classificam os fatores conhecidos que aumentam o risco de cardiopatia coronariana em três grupos:

Grupo I: não passível de prevenção: sexo, idade (risco aumentado com a idade avançada), história familiar (positiva para vasculopatia precoce), certos biótipos;

Grupo II: em que existem associações de entidades patológicas: hipertensão arterial, diabete, obesidade, hiperlipoproteinemias, hiperuricemia e gota;

Grupo III: causada principalmente pela c,ultura e meio ambiente: hábitos alimentares (ingestão elevada de colesterol), lipídios saturados, sacarose, enzimas, hábitos sedentários, fumo, ingestão excessiva de café.

Na obesidade ocorrem perturbações metabólicas dos glicídios, proteínas e também das nucleoproteínas, face a grande interdependência entre obesidade e gota. Na obesidade, costuma ocorrer grande aumento da síntese hepática da pré-beta, uma hiperlipidemia do tipo IV com acentuado aumento dos triglicerídios. Assinalase a prevalência da arteriosclerose nos obesos, principalmente da doença coronariana isquêmica (quatro a cinco vezes maior que na população de peso normal). O capítulo referente à obesidade e ao diabete sacarino tem merecido atenção pelo fato de hiperlipidemia achar-se freqüentemente associada a estes dois estados, devendo ser assinalado que nem todos os diabéticos e obesos são hiperlipidêmicos. O Prof. Isaac Waissman relata que em 6.500 obesos em tratamento no Serviço de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, encontrou em cerca de 34% dos obesos com mais de 20% de peso acima do peso teórico, hiperlipidemia do tipo lipoproteínas de baixa densidade, caracterizada pelo aumento dos triglicerídos endógenos e associada à hiperuricemia e aterosclerose coronariana. O mesmo professor relata que o diabete do tipo essencial no adulto, estável, em 60% dos casos acompanha-se de obesidade.

Deficiência e excesso dos ácidos graxos ômega-6 e ômega-3

A deficiência do ácido ômega-6 acarreta retardo do crescimento, dermatite, supressão da resposta proliferativa dos linfócitos. A deficiência do ácido graxo ômega-3 acarreta dermatite alterações imunológicas e neurológicas. O excesso de ômega-6 produz imunossupressão, inibiçãO da liberação de enzimas dos granulócitos, favorecendo o crescimento tumoral, síntese acentuada de PGE-2, estimulante da atividade dos linfócitos T supressores, redução da produção de anticorpos. O excesso de ômega-3 inibe a produção de eicosanóides W-6 e melhora a resposta celular mediada, que são potentes mediadores inflamatórios.

No caso do emprego de nutrição parenteral total desprovida de lipídios por cinco dias na criança e por três dias no adulto, observa-se alteração bioquímica relacionada com a carência de ácidos graxos essenciais, havendo dificuldade de cicatrização das feridas, descamação da pele e eczema de difícil controle, queda de cabelo e maior sensibilidade às infecções. Laboratorialmente, constatou-se aumento da fragilidade das hemácias, anemia, trombocitopenia, assim como diminuição do índice de prostaglandi nas. A prevenção e tratamento realiza-se pela administração de emulsão lipídica de TCL (triglicerídios de cadeia longa) intravenosa, duas vezes por semana.

Benefícios dos Ácidos Graxos

Estudos realizados sobre os possíveis benefícios dos suplementos alimentares à base de óleo de peixe para os problemas vasculares assinalam que o consumo regular de carne de peixe continua dando provas de contribuir para prolongar a vida, mesmo em pessoas que já apresentam problemas cardíacos. O consumo de peixe, pelo menos duas vezes por semana, demonstrou ser benéfico à saúde.

No País de Gales, dois mil pacientes que haviam sofrido um ataque cardíaco e receberam recomendações de comer peixe pelo menos duas vezes por semana apresentaram significativa redução na probabilidade de sofrerem um ataque fatal nos próximos dois anos, em comparação com aqueles pacientes recebendo apenas dieta com menos gordura e rica em fibras. Embora entre aqueles que comeram peixe a incidência de um segundo ataque cardíaco tenha sido tão ou mais freqüente quanto entre outros participantes do estudo, a taxa de mortalidade foi geralmente reduzida; a redução total de mortalidade por todas as causas foi de 29% entre os que comeram peixe em comparação com o grupo cuja dieta constou da redução de gordura e ingestão de fibras.

Dietas enriquecidas com o ácido ômega-3, de acordo com experiências realizadas em crianças com 10% da área corporal queimada, em fase de recuperação, por diminuírem a imunossupressão produzida pelo aumento da PGE-2, reduziram a taxa de infecção e mortalidade em comparação àquelas obtidas com o uso de dieta com ômega-6. O efeito benéfico potencial mais acentuado do uso de ômega-3 acha-se relacionado com a ocorrência do DAC (doença aterosclerótica coronariana), e uma dieta com alto teor de ácido eicosapentaenóico e deco-hexaenóico ocasiona benefícios adicionais na prevenção ou redução da aterosclerose, incluindo redução nos triglicerídios, VLDL, LDL e colesterol total.

Os indivíduos com hiperlipidemia apresentam concentração elevada de colesterol e/ou triglicerídios no plasma, cujo limite varia com o sexo e idade, e pelo conhecimento das concentrações plasmáticas de colesterol e triglicerídios, pode-se determinar a classe de hiperlipidemia que se acha elevada, o que permitirá fazer o diagnóstico genético. Assim, no caso de alto teor de colesterol no sangue e a presença de taxa normal de triglicerídios, temos excessiva concentração de LDL, devida a uma hipercolesterolemia patogênica (no caso de elevação da concentração de LDL de 95%). Clinicamente, uma concentração de triglicerídios em torno de 200-800mg/dl associada com uma taxa normal ou próxima do normal de colesterol indica uma simples elevação de VLDL, assim como uma elevação de triglicerídios acima de 1.000mg/dl indica comumente a presença de quilomícrons, e qualquer um dos dois ou ambos em adição à VLDL elevada. E difícil a distinção entre as formas de hipertrigliceridemia primitiva e secundária, pois grande número de indivíduos hipertriglicêmicos apresentando predisposição genética têm sua afecção agravada pela presença de outras afecções como o diabete.

No caso de moderada elevação de triglicerídios e colesterol, o indivíduo apresenta elevação de LDL e VLDL, ocorrendo com freqüência na lipoproteinemia familiar tipo hiperlipoproteinemia, e, de forma menos comum, hipercolesterolemia familiar.

Estudos populacionais revelaram que uma concentração elevada de colesterol ou LDL-colesterol plasmático representa um maior fator de risco para a ocorrência de aterosclerose.

Outra ação dos ácidos graxos poliinsaturados dos peixes marinhos é a do seu impacto na síntese dos leucotrienos, proporcionando alívio em doenças imunológicas e inflamatórias. Tem sido assinalado que níveis elevados de LTB4 acham-se implicados na artrite reumatóide psoríase e outras afecções linfoproliferativas autoimunes. A síntese do LBT4 é suprimida pela competição de EPA com ácido araquidônico como substrato da lipoxigenase, o que resulta na produção de LBT 5 biologicamente inativo. Essa redução determina melhoria do processo inflamatório, assim como a EPA tem exercido efeito benéfico no alívio desse processo.

Recentemente, foram observados resultados de que a ingestão de óleo de peixe ocasiona sensível redução de hipertrigliceridemia e estudos epidemiológicos assinalam que a adição de peixe à dieta, algumas vezes por semana, pode ser benéfica para a prevenção de doença aterosclerótica coronariana. O uso de óleo de peixe rico em ácidos graxos ômega-3 aumenta o conteúdo de ácidos graxos poliinsaturados, podendo ser considerado equivalente à terapêutica médica.

Os ácidos graxos ômega-3 parecem exercer efeito anti-hipertensivo, inibindo os vários derivados da prostaglandina, através do EPA, e, outros ácidos graxos ômega-3, a liberação da epinorepinefrina das terminações nervosas. Numerosos estudos assinalaram alterações favoráveis nos perfis hemáticos através do consumo de peixe ou da ingestão dos lipídios saturados, com suplementação em larga escala de cápsulas de óleo de peixe, quer em pacientes hiperlipidêmicos, quer em indivíduos normais.

Os ácidos graxos ômega-3 promovem acentuada redução dos lipídios plasmáticos através dos triglicerídios e das VLO L, acreditando-se que essa redução seja devida à inibição da síntese hepática dos triglicerídios VLOL e apoproteínas B das VLOL. No entanto, têm sido observadas discrepâncias no que tange às alterações do colesterol total, LOL e H OL, que são atribuídas a diversos fatores.

O bloqueio da função de TXA2 é realizado pela prevenção da síntese dos precursores pela inibição total da cicloxigenase, sabendo-se que o ácido acetilsalicílico, a indometacina e drogas antiinflamatórias não-hormonais similares têm a propriedade de acetilar de modo covalente o local de ação da clicoxigenase, tornando-a inativa de maneira irreversível.

Dietas com Ácidos Graxos

Ansel Kiss realizou um estudo em sete países com hábitos alimentares distintos, entre outras variáveis, como pressão arterial, gordura da dieta e tabagismo, estabelecendo pela primeira vez correlação direta entre o teor de gordura presente na dieta e o índice coronariano por coronariopatia. Após 10 anos de observação, todas as variáveis foram definitivamente correlacionadas, como a morte súbita, colesterolemia, eventos coronarianos e quantidade de gordura na dieta, tendo sido firmada a correlação das gorduras saturadas com a doença arterial coronariana, além da correlação inversa das gorduras insaturadas.

Recentemente, Kromhout e Sanders em seus trabalhos demonstraram uma nova e inesperada correlação do peixe na dieta, como a exemplo dos ácidos graxos insaturados de maneira geral e a redução do desenvolvimento da progressão na mortalidade secundária à coronariopatia. Kromhout e col. realizaram uma pesquisa estudando a relação entre o consumo de peixe e doença coronariana em um grupo de homens na cidade de Zutphen, na Holanda, sobre 872 homens de meia-idade durante 20 anos (19601980), chegando ao resultado de que a mortalidade por doença coronariana foi mais que 50% menor entre os que consumiram pelo menos 30g de peixe por dia do que naqueles que não consumiram peixe, concluindo que o consumo de um ou dois peixes por semana pode ter valor preventivo na doença coronariana.

Vários estudos realizados no Japão revelaram índices de mortalidade mais baixos na ilha de Okinawa, onde o consumo per capita de peixe era de 200g diários. A relação dos resultados obtidos com dietas ricas em peixe baseia-se no fato de que animais marinhos e peixes de água fria contêm apreciáveis quantidades de ácidos graxos poliinsaturados da série ômega-3.

Os hábitos dietéticos de populações como os esquimós da Groelândia e os habitantes de algumas ilhas do Japão, grandes consumidores de peixes e animais marinhos, proporcionam a observação de que os ácidos ômega-3 eram capazes de elevar o tempo de sangramento, reduzir a adesividade e agregação plaquetárias. Além desses dados, as taxas de mortalidade cardiovascular, mais reduzidas desses locais corroboraram as pesquisas realizadas. Foi demonstrado que os peixes de água fria apresentam elevada concentração de ácidos ômega-3 devido à sua alta concentração e síntese pelo zooplâncton daquelas regiões, principalmente pelos microcrustáceos “Krill”, que fazem parte da alimentação dos peixes de água fria.

A orientação do National Heart, Lungs, and Blood Institute é a de que deva ser encorajado o consumo de peixe. Os compostos dos ácidos eicosapentaenóico e decosa-hexaenóico purificados já produzidos pela indústria farmacêutica, podem ser empregados, dentro dos critérios de indicação e precaução, pois pacientes em uso de vasodilatadores ou antiagregantes plaquetários como parte de seu tratamento podem ter exacerbado estas ações por potencialização de efeitos.

Michel Batlouni, chefe de Seção de Cardiolagia da Clínica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de Goiás, realizou importante estudo sobre ácidos graxos ômega-3 e cardiopatia isquêmica referente a estudos epidemiológicos, desde Sinclair (1944), assim como os de Kromhout e col., assinalando que o uso de dietas ricas em ácidos graxos poliinsaturados ômega-6 promove aumento da concentração de ácidos graxos ômega nas células do sistema imunológico, acarretando aumento de PGE-2, o que resulta em efeito imunossupressor. Já a adh1inistração de dietas ricas em ômega-3 em pequenas quantidades altera a composição dos ácidos graxos nas células do sistema imunológico, diminuindo a produção de eicosanóides ômega-6. Do equilíbrio entre a presença de substâncias eicosanóides originadas dos ácidos ômega-6 e ômega3, mediadores potentes, respectivamente, dependerá a eficácia do sistema imunológico.

Acha-se provado que os peixes de água gelada próxima à camada polar têm alta capacidade de produção de ácidos graxos poli insaturados ômega-3 que possuem a propriedade primordial de exercer o papel de tampão térmico anticoagulante nessas espécies de pescado, o que lhes permite grande capacidade de adaptação, assim como grande resistência às baixas temperaturas. Em oposição, a quase totalidade de ácidos graxos poliinsaturados, principalmente os de peixes de água fria como o arenque, salmão, bacalhau, albacora, cavala e anchova, pertence à família do ácido alfa-linolênico, à série ômega-3, sendo também encontrado em teores apreciáveis nos óleos de linhaça e soja. O ácido alfa-linolênico também pode ser convertido em EPA (ácido eicosapentaenóico) e DHA (ácido deco-hexapentaenóico), sendo essa conversão lenta no homem, ocorrendo com a idade e até pela ação de certos estados mórbidos, a perda da dessaturação que reduz a síntese endógena de EPA e DHA através do ácido alfalinolênico de dieta. Nos peixes marinhos, os ácidos graxos ômega-3 predominantes são o EPA e o DHA, que sofrem variações no seu conteúdo pelas modificações sazonais.

Sabe-se que o EPA e DHA previnem a conversão do ácido linoléico a araquidônico, catalisando a acil-coenzima A sintetase à incorporação desses ácidos na membrana fosfolipídica, pois tanto EPA como DHA competem com o ácido araquidônico na posição 2 do fosfolipídio, o que acarreta diminuição dos níveis plasmático de ácidos araquidônico, assim como de seus produtos.

Mecanismo de ação

A alta ingestão de EPA e a baixa ingestão de ácido araquidônico resultante de uma dieta isenta de ácidos ômega-3, promovem desvio do balanço homeostático de um estado vasodilatador, antiagregante e antiarrítmico através de um mecanismo inter-relacionado. O EPA, ao competir com o ácido araquidônico pela ação da ciclogenase – o que acarreta a produção de prostaglandinas das séries 3 e 2 – proporciona efeitos biológicos diferentes.

Uma dieta rica em ácidos graxos poliinsaturados modifica o perfil lipídico, com redução dos níveis plasmáticos de triglicerídios, VL OL, L DL e colesterol total e aumento dos riscos de DAC, pouco se sabendo do mecanismo do efeito hipolipêmico; porém, a modificação do perfillipêmico acarreta efeitos desejáveis, pois o colesterol total e conteúdo do lipídico das membranas das hemácias causam a alteração e a fluidez destas membranas. Por outro lado, sugere-se que os ácidos ômega-3 exercem ação direta no aumento da deposição de VLDL pelos tecidos periféricos ou pelo fígado, resultando redução da quantidade total de VLOL sérico.

Os estudos, realizados com a administração de óleos de peixes marinhos ricos em ácidos graxos ômega-3 demonstraram que a alteração principal nos lipídios plasmáticos foi a acentuada redução dos níveis dos triglicerídios e das VLDL. Acredita-se que o mecanismo responsável pela redução dos triglicerídios seja devido à inibição da síntese hepática dos triglicerídios, VLDL e apoproteínas B das VLDL, assim como remoção das VLDL dos tecidos periféricos. Apesar dessas observações, constatou-se que as alterações do colesterol total, LDL e HDL são inconsistentes e até conflitantes.

Wlin Wingworth, Harris e Connor referem que a ingesta de altos teores de óleos de peixe, de 90 a 120gldia, promove baixa da concentração de LDL-colesterol e da aproproteína B das LDL, que previnem também a elevação do colesterol plasmático pelo colesterol da dieta, conforme assinala Neste!. O consumo de ácido ômega-3 tem a propriedade de alterar não apenas o balanço das prostaglandinas, como de outros eicosanóides, e dos leucotrienos.

Dehmer, M.D. e col., no estudo aberto randomizado comparativo entre esquema antiagregante convencional (325mg de aspirina e 225mg de piridamol/dia – grupo de controle) e um esquema similar suplementado com 3,2g de ácido eicosapentaenóico/dia e 2,2 de ácido decahexanóico diariamente, mais aspirina e piridamoi (grupo tratado), tentaram determinar a segurança e os benefícios após angioplastia coronariana, que é um importante tratamento para doenças relacionadas com doença arterial coronariana. O tratamento foi iniciado sete dias antes da angioplastia e continuado por seis meses após. Os resultados sugeriram que a suplementação dietética com ácido ômega-3 concomitantemente com agentes antiplaquetários convencionais é segura e bem tolerada e resulta em significativa redução de reestenose precoce, ainda mais que o não consumo de peixe é um fator de risco independente para doenças coronarianas; que a baixa trobogenicidade das dietas ricas em óleo de peixe é causada inicialmente pelo fato de que as plaquetas não podem produzir tromboxanos suficientes para manter sua agregação, e que pequenas quantidades de ácido eicosapentaenóico podem ter um efeito preventivo contra doença coronariana, considerandose que o ácido eicosapentaenóico é o único componente ativo da dieta de peixe, sendo essa hipótese confirmada em seres humanos.

Como já assinalamos, os ácidos ômega-3 juntamente com os ômega-6 são essenciais ao organismo, não podendo ser sintetizados, e a partir do ômega-3 pode-se produzir derivados ômega6 e ômega-9, mas não o contrário. Diante da fonte principal de ácidos ômega-3 nas dietas, também os ácidos graxos ômega-6 são sintetizados por seu intermédio, o que também ocorre com o ácido araquidônico, base na síntese de toda a série de endoperóxidos (prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos). O mecanismo das ações vasculares e hematológicas acha-se relacionado com a produção de derivados menos potentes de tromboxano (tromboxano A3 e leucotrienos, mantendo-se intacta a potência vasodilatadora e antiplaquetária da prostaciclina).

Ácidos graxos ômega-3, ômega-6 e ômega-9

Os ácidos graxos poliinsaturados W-3, W-6, W-9 e seus derivados são provenientes dos ácidos linolênico e linoléico, respectivamente, não sendo permutáveis, processo observado nos ácidos graxos monoinsaturados, que podem ser formados a partir dos saturados.

Os ácidos graxos insaturados são encontrados, como já assinalamos, em grande percentual nos óleos e gorduras de certas sementes e algumas gorduras animais. O nome vitamina F foi aplicado a uma mistura de ácidos graxos não-saturados, incluindo o linoléico, o linolênico e o araquidônico, considerados essenciais para o rato e apenas o ácido linolênico para o homem.

Os ácidos graxos, principalmente na forma de fosfolipídios, são encontrados entre os vários elementos que compõem as células do sistema imunológico, apresentando os linfócitos e macrófagos alto teor de ácido araquidônico (W-6). Este ácido, presente na membrana celular, após estimulação por mitógenos, linfocinas e antígenos, atua sobre diversas fases da resposta imunológicas através da produção de prostaglandinas e leucotrienos, que atuam como potentes mediadores inflamatórios.

Os monócitos e os macrófagos produzem PGE-2, que aumenta após traumatismos, queimaduras, câncer, salientando-se que dietas ricas em ácido araquidônico, acarretam seu aumento nas células do sistema imunológico, o que resulta em aumento imunossupressor. O emprego de dietas ricas em ácido graxo W-3 em pequena quantidade altera a composição de ácidos graxos nas células do sistema imunológico, o que reduz a produção de eicosanóides W-6. Sabe-se que a eficiência depende em parte do equilíbrio entre produção de substâncias eicosanóides derivadas do W-6 e dos W-3, sendo que estes inibem as enzimas envolvidas no metabolismo do ácido araquidônico e eicosanóides W-6. ‘

O ácido araquidônico que provém diretamente de fontes dietéticas ou sintetizado a partir do ácido linoléico da dieta, é o principal componente das membranas fosfolipídicas celulares, ocupando a posição 2-acil dos fosfolipídios. Sob a ação de diversos estímulos, a fosfolipase A-2 libera o ácido araquidônico necessário à síntese dos eicosanóides e, através da ciclogenase, sofre conversão nas plaquetas a tromboxane 2, que exerce potente ação vasoconstritora e agregante.

São poucas as substâncias que têm despertado interesse, sob o ponto de vista biológico, como as prostaglandinas e produtos relacionados ao metabolismo do ácido araquidônico, pois as prostaglandinas e produtos relacionados são denominados eicosanóides por serem derivados de ácidos graxos essenciais de 20 átomos de carbono, contendo três, quatro ou cinco duplas ligaduras, como o ácido eicosatrienóico e o ácido eicosapentaenóico.

O ácido araquidônico constitui no homem o mais abundante precursor igualmente derivado do ácido linoléico da dieta, sendo esterificado como um componente dos fosfolipídios ou moldado em combinação com outros lipídios complexos. Sua concentração em estado livre é baixa e a biossíntese dos eicosanóides depende primariamente de sua liberação dos locais de armazenamento por várias acil-hidrolases. Após esterificação, sofre incorporação pela membrana celular pela acetilcoenzima A-sintetase, é armazenado como fosfatidilcolina ou fosfatidilinositol, e alterações mecânicas ou químicas da membrana celular ativam a enzima fosfolipase A-2, liberando araquidonato, ou sofre rápida metabolização através de uma das duas vias.

A enzima 5-lipoxigenase, encontrada nos leucócitos, plaquetas e pulmões, vai formar um hidroxiperoxiácido instável, o 5-hidroxiperioxieicosatetranóico (HPETE), que transforma-se no correspondente hidroxiácido (H ETE) e no leucotrieno A-4, sendo o restante dos leucotrienos da série 4 derivados do LTA-4, assim como o LTB-4, de grande ação antiinflamatória.

Estudos epidemiológicos

Sinclair, em 1944, assinalando a raridade da cardiopatia isquêmica e de outras características da aterosclerose nos esquimós da Groelândia, iniciou a era de estudos sobre o papel benéfico do consumo de peixe sobre a doença coronariana.

Bang e col. e Dyeberg, através de estudos epidemiológicos, documentaram entre esquimós da Groelândia baixa incidência de mortalidade cardíaca e infarto, apesar de consumirem dieta rica em gordura e colesterol, sal ientando-se a associação aos hábitos alimentares e a composiÇãO das gorduras consumidas à baixa incidência de mortalidade observada, pois tais gorduras derivavam de peixes e animais marinhos. Outros estudos epidemiológicos evidenciaram a relação entre dieta rica em peixe e a baixa incidência de cardiopatia isquêmica. Os teores de ácidos linoléico e araquidônico apresentaram menor concentração sangüínea. O perfillipídico caracterizava-se por níveis baixos de triglicerídios e lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL), colesterol, lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e níveis mais altos de lipoproteínas de alta densidade. As plaquetas achavam-se em taxa reduzida, assim como a agregação plaquetária, tempo de coagulação prolongado e sangramento fácil, além de pressão arterial baixa. Em oposição, esquimós que migraram para a Dinamarca apresentavam perfis lipídicos plasmáticos e os tempos de sangramento mais similares aos da população dinamarquesa do que a dos esquimós da Groelândia, sendo a dieta e não a genética apontada como o fato mais importante.

Goodnight e colo observaram que tempos de sangramento prolongados e adesão plaquetária reduzidos resultaram da relação ácido araquidônico/EPA, causada pela incorporação dos ácidos ômega-3 nas células da membrana; outros autores demonstraram que a ingestão de 2-3g de EPA/dia prolongava o tempo de sangramento em 42%. Os estudos de pesquisadores japoneses, como os epidemiológicos de Kagawa e col., indicam o papel relevante do consumo de peixe na dieta. Outros estudos realizados documentaram alterações favoráveis nos perfis hemático e lipídico que resultaram da ingestão de peixe ou da redução de gorduras saturadas à suplementação com cápsulas de óleo de peixe, tanto em pacientes hiperlipêmicos como em indivíduos normais, que contribuíram para o perfil antiatemmatoso favorável.

Em 1960, na Holanda, foi realizada, na cidade de Zutphen, uma pesquisa longitudinal relacionada entre dieta e outros fatores de risco de doença coranariana entre homens de meiaidade, abordando diversos dados, como média de consumo alimentar e seu histórico dietético. O consumo de peixe de Zutphen era de 20gldia em 1960, sendo 2/3 de peixe magro (bacalhau, linguado) e 1/3 de peixe gordo (arenque e cavala), contendo o peixe magro cerca de 1,5% de gordura, dos quais aproximadamente 5% de ácido eicosapentaenóico (ômega-3), e estudos in vitro demonstraram que este ácido graxo é o precursor do tromboxane A3 da plaquela e da prostaglandina 13 na parede vascular. O tromboxane A3, ao contrário do tromboxane A2, que deriva do ácido araquidônico (ômega-6), não tem poder de agregação plaquetária, sendo a prostaglandina 13 substância eficaz contra a agregação plaquetária com a 12.

Os trabalhos de Dyerberg e col. sugeriram que os níveis elevados de ácido eicosapentaenóico e níveis reduzidos de ácido araquidônico podem ocasionar um quadro antitrombótico, estado em que são formadas as prostaglandinas 13 ativa e o tromboxane A3 inativo. Hornstra e colo e Goodnight são de opinião que a baixa trombogenicidade das dietas ricas em óleo de peixe origina-se em primeiro lugar no fato de que as plaquetas não podem produzir tromboxanes suficientes para manter sua agregação.

As pesquisas epidemiológicas têm-se dirigido para os níveis de colesterol sangüíneo, assim como outros fatores que, associados, constituem fatores agravantes na evolução das manifestações aterogênicas coronarianas. Nos casos de elevação do colesterol, diversas medidas têm sido postas em prática para reduzi-lo através de um planejamento nutricional, terapêutico e preventivo, apesar de saber-se que o colesterol alimentar não representa a única fonte de colesterol sangüíneo, pois, como vimos, ele sofre síntese endógena. Os ácidos graxos e os lipídios também têm sido estudados, constatando-se que a incidência de cardiopatia coronariana acha-se também relacionada com outros fatores.

Metabolismo, Sinais e Sintomas Clínicos.

Metabolismo dos Ácidos Graxos:

- o ácido linoléico forma o ácido y-linolênico convertido a ácido araquidônico;

- ácido araquidônico – precursor da síntese dos eicosanóides (série 2-prostaglandinas e série 4-leucotrienos);

- ácido a-linolênico convertido a ácido eicosapentaenóico (EPA) e deco-hexapentaenóico (DHA) – precursores da série 3-prostaglandinas e da série 5-leucotrienos. Estes mediadores competem e inibem os da família W-6;             .

- Os ácidos gravos W-3 inibem as enzimas envolvidas no metabolismo do ácido araquidônico a eicosanóides W-6;

- na ausência de W-6, o ácido oléico W-9 é convertido a ácido eicosatrienóico W-9;

- os derivados podem ser sintetizados a partir de ácidos graxos essenciais;

- os ácidos graxos essenciais dependem da carnitina para sofrerem oxidação no interior da mitocôndria;

- os ácidos graxos livres ligam-se à albumina para transporte plasmático;

- sob forma de triglicerídios de cadeia longa (TCU são hidrolizados pela enzima lipoproteína-lipase.

 

Sinais e Sintomas Clínicos:

Hiperlipidemias; hipercoagulação; metabolismo anormal dos eicosanóides; dermatite seborréica, despigmentação, queda de cabelo.

O uso de dietas ricas em peixe ou a suplementação com óleo de peixe motivaram na última década pesquisas, estudos epidemiológicos, bioquímicos, experimentação animal e ensaios clínicos visando seu efeito no organismo humano sobre o metabolismo lipídico e na prevenção da aterosclerose.

O bacalhau (Cadus morrhua) constituiu indubitavelmente o precursor do emprego do óleo de seu fígado em terapêutica, órgão que nesse gádida possui 63% de seu peso em gordura. O óleo de peixe contém quantidades apreciáveis de uma série de ácidos graxos poliinsaturados conhecidos como ômega.

Ácidos graxos essenciais

Ácidos graxos essenciais

Exercem várias funções importantes como:

- precursores dos eicosanóides: prostaglandinas e leucotrienos, potentes mediadores anti inflamatórios;

- atuam na modulação do sistema imunológico;

- componentes celulares: funções das membranas e dos fosfolipídios;

- co-fatores enzimáticos;

- os ácidos graxos W-3 inibem as enzimas envolvidas no metabolismo do ácido araquid6nico e eicosanóides W-6;

- dietas ricas em W-3 parecem ser úteis em pacientes queimados, na fase de recuperação.

Ácidos graxos ômega

Esses ácidos graxos da série ou das famílias ômega encontram-se na dependência da posição metila na molécula do ácido graxo, correspondendo à distância entre o radical metila terminal e à primeira -dupla ligação da molécula (ligação ômega), tratando-se de classificação química estrita, destacando-se os representantes ômega-3, ácido linolênico, (18:3 W-3); ácido linoléico, ômega-6 (18:2 W-6), ácido araquidônico (20:4W6) e ácido oléico, monóinsaturado W-9.

As duas famílias de ácidos graxos poliinsaturados W-6 e W-3 e seus derivados advêm, como já vimos, dos ácidos linoléico e linolênico, não sendo permutáveis, com exceção dos ácidos graxos monoinsaturados, que podem ser formados a partir dos saturados.

O ácido linoléico forma normalmente o ácido y-linoléico (18:3 W-6) que, por sua vez, sofre conversão a ácido araquidônico. Por outro processo, o ácido a-linolênico é convertido a ácido eicosapentaenóico (EPA) e a deco-hexapentaenóico (DHA), ácidos que são mediadores menos potentes, como a série 3-prostaglandinas e a série 5-leucotrienos, que competem e inibem os da família W-6. Ambas as vias metabólicas acham-se sob a atividade da enzima 6-desaturase, o que resulta que o excesso ou a deficiência de um ácido graxo essencial pode intervir no metabolismo do outro, como é o caso do ácido oléico W-9, que na ausência de W-6 sofre conversão a ácido eicosapentaenóico. Por sua vez, o decréscimo plasmático de W-6 e o aumento de W-9 indica decréscimo do metabolismo do linolenato.

O ácido linolênico constitui o principal ácido graxo poliinsaturado, sendo encontrado nos óleos e sementes vegetais (soja, milho, algodão, girassol) e pequenas quantidades no leite e na carne, contendo duas duplas ligações insaturadas, ligações carbono-carbono, localizando-se a primeira no sexto átomo de carbono a partir da extremidade metila, que lhe dá a designação de ácido graxo ômega-6 ou n-6.

A maioria dos ácidos graxos poliinsaturados com três ou mais duplas ligações encontra-se nas gorduras animais e vegetais terrestres, também pertencendo à série ômega-3.

O ácido linoléico pode experimentar no organ ismo humano alongamento e dessaturação, produzindo o ácido araquid6nico, que é o precursor habitual da síntese de eicosanóides, especificamente da série 2-prostaglandinas e série 4-leucotrienos, que designam os produtos do catabolismo do ácido araquidônico (ácido eicosatetranóico) e dos ácidos graxos aparentados, os ácidos eicosatrianóico e eicosapentaenóico, potentes mediadores químicos.

Síntese dos ácidos graxos e produção de energia

No processo de transferência das unidades de dois carbonos de malonil-CoA, o C02 é novamente liberado, exercendo a malonil-CoA função como intermediário, sendo essa a via de processamento a biotina e a niacina exercem papel importante no processo de síntese dos ácidos graxos, sendo a biotina participante na formação da malonil-CoA, e a niacina na formação de NADP reduzido (nicotinamida-adeninadinucleotídios-fosfato), que atua como um receptor de hidrogênio.

A glicose representa a principal fonte de acetil-CoA para a síntese dos ácidos graxos que, por sua vez, é estimulada por uma alta ingestão calórica, constituindo um dos principais processos na conversão do excesso de triglicerídios no tecido adiposo.

Outro processo importante é o da dessaturação dos ácidos graxos, isto é, da formação de uma dupla ligação que acarreta alteração dos ácidos graxos disponíveis para atender às necessidades orgânicas, pois o ácido oléico, monoinsaturado, é formado pelo ácido esteárico.

Os ácidos graxos poliinsaturados sofrem síntese a expensas dos ácidos graxos insaturados existentes, como é o caso do ácido linoléico, que sofre conversão em araquidônico pela remoção de dois átomos de hidrogênio e adição de uma unidade de dois carbonos, sofrendo dessaturação. A oxidação dos ácidos graxos é processada normalmente nos músculos. Randle e col. referem a existência de um ciclo glicose-ácido graxo, que é a relação recíproca entre a glicose e ácidos graxos nos músculos e tecido adiposo, através dos ácidos graxos não-esterificados (N EFA), liberados pela lipólise do tecido adiposo, circulando ligados à albumina sérica, que constitui a fração mais ativa dos lipídios sangüíneos. A NEFA e seus produtos de oxidação suprimem a oxidação, a captação e o catabolismo da glicose durante a sua captação, acarretando, ao contrário, aumento da insulina, que reduz a liberação dos ácidos graxos do tecido adiposo.

A capacidade de estocagem no tecido adiposo é virtualmente ilimitada, provendo a energia necessária, cujo suprimento varia individualmente e circunstancialmente. O fígado também sintetiza ácidos graxos e triglicerídios, e a prevenção de acúmulo de gordura nesse órgão é feita pelos chamados fatores lipotrópicos que, pelo processo de transmetilação, promove a formação de lipoproteínas, que transformam os ácidos graxos fora do fígado.

A produção de energia total pelos lipídios acha-se relacionada com os ácidos graxos no teor de 95%, sendo o restante através da mistura de glicerol nas moléculas de triacilgliceróis. Na produção de energia, os ácidos graxos devem de início sofrer ativação pela formação de acil-CoA que, por sua vez, pode sofrer uma série de beta-oxidações, cada qual resultando na liberação de uma unidade de dois carbonos, já como acetil-CoA, que por sua vez é liberado sob oxidação pelo CACo.

Os ácidos graxos comuns em sua maioria contêm grande número de carbonos, dando apenas CoA, pela beta-oxidação; já os ácidos graxos ímpares sofrem a mesma oxidação, dando no final do ciclo uma acetil-CoA e uma propionil-CoA que vai ser convertida em succiniI-CoA, que faz parte do CACo Dessa forma, os ácidos graxos com números de carbono desiguais vão constituir substratos para a neoglicogênese, enquanto os ácidos graxos com números de carbono iguais não a realizam.

Como funciona a Oxidação dos ácidos graxos

A oxidação final dos ácidos graxos é realizada nas mitocôndrias, iniciando-se pela sua hidrólise procedida na luz jejunal, pela atuação de diversas lipases, sendo o glicerol e os ácidos graxos daí resultantes absorvidos e transportados pela via linfática e sangüínea ligados à albumina sérica a diferentes células do organismo, chegando ao citosol, após atravessarem a membrana celular.

A membrana mitocondrial constitui uma barreira antes dos ácidos graxos atingirem a matriz mitocondrial, onde são oxidados, devendo os ácidos graxos passar por três reações enzimáticas para atravessarem a referida barrei ra, chegando então à forma de uma acil-coenzima A graxo intramitocondrial. A realização dessas três reações enzimáticas sucessivas é devida ao fato de que as funções desempenhadas pela acilcoenzima graxo intramitocondrial serem bastante diferentes daquelas da mesma natureza existentes no citosol das células, pois enquanto uma é aplicada na biossíntese dos ácidos graxos, outra é destinada basicamente à degradação oxidativa do piruvato, dos ácidos graxos e de alguns aminoácidos.

Através da atuação de diversas enzimas, a molécula de ácido graxo sofre sucessivas amputações, partindo da extremidade carboxílica de sua molécula, de cada vez perdendo dois átomos de carbono que são destinados à formação de ácido acético, sendo o último resíduo representado pela acetil-coenzima A que finalmente é degradada pela sua participação no ciclo do ácido cítrico. Esse esquema é observado estritamente no catabolismo dos ácidos graxos saturados, devendo ser salientado que a maioria das moléculas desses ácidos encontrada nos triacilgliceróis animais é insaturada, apresentando uma ou mais duplas ligações em suas moléculas. Torna-se, assim, necessária para a degradação desses ácidos graxos a atividade de uma isomerase e de uma epimerase que atuam de modo específico no processo de degradação da cadeia molecular do ácido graxo quando este esbarra numa dupla ligação, realizando-se o restante do processo de modo idêntico até a formação da acetil coenzima A, participante do ciclo do ácido cítrico.

Os ácidos graxos com número ímpar de átomos de carbono apresentam processo degradativo idêntico, havendo, porém, modificação quando a molécula residual encerra cinco carbonos, sendo que nesta etapa a degradação produz mais uma acetil coenzima A que entra no ciclo do ácido cítrico, ao lado de uma propionilcoenzima A com três átomos de carbono, que sofre carboxilação pela ação enzimática da propionil CoA. Forma-se, então, a metilmalonilcoenzima A que representa um intermediário ativo; a via é sempre considerada como sendo a via da malonil-CoA, que, por sua vez, através de um rearranjo intramolecular, origina a succinilcoenzima A, uma das enzimas intermediárias do ciclo do ácido cítrico.

A maioria dos ácidos graxos contém um número par de carbonos, fornecendo assim só acetil-CoA, como resultado da beta-oxidação. A acetil-CoA, que é o composto-chave que canaliza os carbonos da glicose, aminoácidos e ácidos graxos para o ciclo do ácido cítrico (CAC) formado pela degradação dos ácidos graxos, pode seguir outra via no fígado que não a oxidação, através do ácido cítrico, pela formação do grupo dos corpos cetônicos, formação de cetoacetato e do beta-butirato em conjunto com a acetina.

A síntese dos ácidos graxos da acetil-CoA é estimulada por uma alta ingestão calórica e representa um dos principais passos na conversão do excesso de energia em triglicerídios no tecido adiposo. A dessaturação dos ácidos graxos, formação de uma dupla ligação, constitui outro meio de alterar os ácidos graxos disponíveis para atender às necessidades do organismo. Essa transformação é caracterizada por fornecer aos tecidos um tipo de combustível, pois tais substâncias podem ser oxidadas através da via ácido cítrico nas células dos tecidos periféricos.

A formação de corpos cetônicos ocorre geralmente na superalimentação, apresentando-se anormalmente aumentada no diabete e no jejum, acarretando o quadro de cetose, pois, nesses estados, o fígado, pelas modificações metabólicas causadas pelo jejum ou falta de insulina, ocasiona aumento de corpos cetônicos que excede os processos de captação e oxidação que essas substâncias sofrem nos tecidos periféricos. Os processos que intervêm na degradação dos glicídios, proteínas e lipídios conduzem a uma via comum, a do ciclo do ácido cítrico, que completa o processo catabólico daqueles princípios imediatos, formando água e gás carbônico, assim como liberando energia química que elas acumulam, pois o referido ciclo é comandado por um sistema enzimático que funciona de maneira circular. Seu início é representado pelo encontro do oxaloacetato (que contém quatro átomos de carbono na molécula) com o aceti 1CoA que, por sua vez, cede dois átomos de cloro no do grupo acetil, originando o citrato, que encerra seis átomos de carbono, sofrendo desidrogenação, perdendo C02, o que resulta na formação de um cetoglutarato com cinco átomos de carbono. Diversas transformações enzimáticas são realizadas e o succinato regenera o oxaloacetato, passando por duas fases: a de fumarato e a de malato.

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